Ô HOMEM SABIDO! (Clerisvaldo B. Chagas. 10.11.2009) Quem não gosta de música, a Arte e Ciências de harmonizar os sons? Pode ser forró, frev...

Ô HOMEM SABIDO!

Ô HOMEM SABIDO!
(Clerisvaldo B. Chagas. 10.11.2009)

Quem não gosta de música, a Arte e Ciências de harmonizar os sons? Pode ser forró, frevo, tango, bolero, qualquer uma serve, dependendo da ocasião. Está alegre? Músicas alegres. Bateu à saudade? Vai um Nelson Gonçalves, um Cauby Peixoto, um Altemar Dutra. Conheci certo dentista que acalmava a clientela com a chamada música clássica das grandes orquestras. Em alguns lugares, até as vacas produzem mais leite ouvindo música nas cocheiras. Quem não canta, ouve. Até mesmo a arte brega, antes estigmatizada, caiu no gosto de quem tem amor bandido ou uma esperança apaixonada do coração. Na euforia, até música de péssima qualidade é aceita na força da cachaça.
Falando, porém, sobre indivíduos, tem aqueles que gostam de abusar. São os que ligam o som da casa em toda altura por muito tempo; os que aonde chegam fazem exibições dos potentes aparelhos em malas de automóveis; os dos carros de propaganda que não respeitam os decibeis da Lei; ou mesmo os ambulantes que vendem CDs e DVDs em seus carrinhos infernais. O certo é que até para funeral existe música condizente.
Os gêneros musicais de vaquejadas são bons também, desde que o sujeito esteja no ambiente adequado. Os forrós de vaquejadas, tão em moda, o aboio, alegram a alma de muita gente. Mas estávamos nos referindo ao abuso. Esse é que é danado.
Trabalhando em determinada escola perto de um bar, eu ouvia todas as manhãs músicas e mais músicas de vaquejadas que duravam horas. E o pior, não era daquelas animadas, e sim, toadas longas, tristonhas e arrastadas. Eu era de uns que já não estava suportando. Quando resolvi falar com o dono do negócio, precisamos de uns reparos no sistema hidráulico. Fomos à repartição adequada, trouxemos um moreno de fala mansa, chapéu preto de massa e óculos de grau. O homem iniciou o seu trabalho e eu fiquei perto, pois sempre gostei de conversar com pessoas maduras. Conversa vai, conversa vem, mas ele sempre trabalhando. Terminei dizendo sobre o som que tanto nos incomodava. Falei que não sabia como os da repartição dele, que ficava ainda mais perto do bar, aguentavam. E o homem, bastante experimentado na vida, sequer parou o serviço. Respondeu com sua voz mansa, examinando uma peça à luz solar: “A gente nem fala com o dono do boteco. Não vale à pena. Professor existe quatro tipos de pessoas que mexem com essas coisas: o boiadeiro, o vaqueiro, o vaquejador e o vacorno. O boiadeiro é o que vende e compra o gado; o vaqueiro é o dono da vacaria; e o vaquejador é o que tange a rês. Quanto ao vacorno, é aquele que não possui sequer um bode, vive bebendo e passando toada”. Aprendendo mais uma, pedi licença, saí e logo retornei. Disse a ele que havia consultado o dicionário e não havia encontrado vacorno no Aurélio. E o homem, ainda sem se alterar, rebateu a lição: “No Aurélio pode não ter professor, mas nessa cidade é o que mais tem nas ruas”. Meditei nas suas palavras e não pude desacreditar: Ô HOMEM SABIDO!



A POSSE DO REITOR (Clerisvaldo B. Chagas. 9.11.2009) Inúmeros automóveis estacionavam perto do prédio sofisticado. Homens e mulheres descia...

A POSSE DO REITOR

A POSSE DO REITOR
(Clerisvaldo B. Chagas. 9.11.2009)

Inúmeros automóveis estacionavam perto do prédio sofisticado. Homens e mulheres desciam em trajes de gala e até serviços havia às portas dos veículos. O pátio parecia um jardim pela decoração caríssima e caprichada. Iam chegando doutores, professores, autoridades, alunos... E penetravam pela porta larga e principal. Aconteceria ali, dentro de poucos instantes, uma festa maravilhosa em homenagem ao aniversário e posse do reitor. O recepcionista da porta larga estava vestido com elegância, porém, não conseguia esboçar nenhum sorriso aos que mostravam o convite. Pedro Fobó ─ aluno pobre da universidade ─, todavia não acertou passar pelo tal elegante. Estava ali com o papel bonito, desenhado, limpinho, mas a sua roupa, segundo o sujeito, não combinava com a festa. Fobó argumentou que era o traje melhor que possuía, mas não houve nenhuma complacência. Desenganado, Pedro rogou a Deus que abençoasse os atos solenes que iriam acontecer, desejou boa sorte ao “caxias” e retirou-se de cabeça baixa.
Para Fobó, a humilhação não havia sido grande coisa. Estava acostumado aos reveses da vida. O problema é que viera de carona e estava sem dinheiro para retornar a casa. Sua residência ficava a quase vinte quilômetros dali, à margem do rio Milagres. Ainda bem que do lugar da festa para a residência era um trecho asfaltado. Após respirar fundo, Pedro iniciou a pé a sua marcha de volta. Quem sabe, pensava ele, poderia até pegar uma carona, nem que fosse numa caçamba. Não conseguiu. Ao chegar perto de casa, muito cansado da longa caminhada, parou sob uma árvore e ficou contemplando ali perto o rio dos Milagres. Como havia levado horas no retorno, viu aproximar-se um carro com certa velocidade. Fobó reconheceu o veículo por causa do símbolo da reitoria. Logo o automóvel caiu no rio ao bater num buraco grande.
Pedro Fobó correu para perto e localizou o carro que ainda não havia submergido. Pulou com roupa e tudo, quebrou vidros e terminou arrastando para a margem, três homens que estavam dentro. Nenhum sabia nadar. As três vítimas beberam água, mas nenhuma delas estava ferida gravemente. Fobó providenciou o socorro necessário até que os três homens começaram devagar a se refazer do susto. O reitor reconheceu Pedro Fobó porque ele tinha sido o melhor aluno do ano passado. O bibliotecário também por causa das pesquisas constantes de Pedro nos livros da casa. E o recepcionista, por motivo da rejeição aos trajes do aluno. Os dois primeiros, mesmo ainda nervosos, sentiram alegria. O terceiro ficou envergonhado. Foi então que o reitor quis saber o que o rapaz estava fazendo ali, pois nem aos sapatos abandonara. Pedro Fobó respondeu que morava perto e estava acostumado a puxar pessoas no rio. Encontrava-se de sapato porque acabara de chegar a pé da festa do reitor. “E como esse amigo recepcionista não me deixou entrar para a posse ─ mesmo de convite à mão ─ estou aqui”. O reitor olhou para Fobó, impressionado. O recepcionista pediu perdão pela grosseria e agradeceu pelo salvamento. Pedro Fobó, antes de providenciar outros tipos de assistência, concluiu: “Nem precisam me agradecer; quem salvou a vida dos três foi Deus e não eu. Apenas meus irmãos vieram a minha posse que nem precisa convites e nem trajes de luxo”.

DESAFIO EM MARTELO AGALOPADO (Clerisvaldo B. Chagas. 6.11.2009) Em Maceió ao poeta José Ormindo e a Wellington Pereira (no Palato) Meu galop...

DESAFIO EM MARTELO AGALOPADO

DESAFIO EM MARTELO AGALOPADO
(Clerisvaldo B. Chagas. 6.11.2009)
Em Maceió ao poeta José Ormindo e a Wellington Pereira (no Palato)

Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

Fui o dono das pragas do Egito
Castiguei os hebreus pelo deserto
Milhares acabei em campo aberto
A Hitler ensinei a ser maldito
Quanto a Nero dei fogo num cambito
Pra o incêndio de Roma comandado
Gengis Khan já deixei recomendado
Da bandeira da paz rasguei o pano
Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

Cooperei na vingança de Sansão
Fui o leme da arca de Noé
Comandei o Egito com José
Ajudei a prender Napoleão
Acabei o cangaço no sertão
Separei a Igreja do Estado
Com Jesus curei cego e aleijado
A ONU implantando dei tutano
Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

Arrasei a cidade de Pompéia
Somente com fogo de vulcão
Fui tortura na Santa Inquisição
Fiz intrigas no centro da Judeia
Quase arraso com o mar da Galileia
Tangi D.João VI do reinado
Mandei terremoto caprichado
Arrancar pela cepa o Vaticano
Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

Eu puxei os hebreus do cativeiro
Em Jericó entrei com Josué
Encorajei Maria em Nazaré
O sangue de Jesus eu vi primeiro
Fui amigo do pai o carpinteiro
Homem simples barbudo e bem cuidado
No Brasil deixei tudo articulado
Com a força que dei a Floriano
Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

Vou botar dinamite no Iraque
Enviar nova tropa ao Paquistão
Provocar mais conflitos com o Japão
Na Coreia do Norte eu dou um baque
Bomba atômica pra mim é só um traque
O que faço é o mal com resultado
Quem quiser que me chame de errado
Porque mato e esfolo o ser humano
Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

Se você é o mal eu sou o bem
Hoje acabo com essa garra sua
Monto o Sol suspendo mais a lua
Vejo o mundo da torre de Belém
Se você conta um eu conto cem
Qual o mal que resiste a um golpe dado
Com espada com murro com machado
Com vigores da mão do Soberano
Meu galope é feroz é desumano
Sem espora sem freio alucinado

FIM

FUSCÃO PRETO ...

FUSCÃO PRETO

FUSCÃO PRETO
(Clerisvaldo B. Chagas. 5.11.2009)

Meu amigo José morava no quadro do comércio de Santana do Ipanema, Alagoas. Durante a festa da padroeira Senhora Santa Ana, nunca faltam barracas de bebidas que concorrem com os bares fixos. São nove noites bem movimentadas entre o religioso e o profano. As barracas são bastante procuradas e quase sempre amanhecem na força do movimento. Em uma daquelas noites meu amigo José cismou e não saiu à rua. Acontece que havia uma dessas barracas a cem metros da sua residência que não o deixava dormir. Estava nas paradas à conhecida música “Fuscão Preto” que fez sucesso em todas as camadas sociais. Já era a madrugada das três horas, mas o disco “Fuscão Preto” parecia enganchado. Quando o barraqueiro completou a décima quinta rodada, José tomou uma decisão. “Hoje aquele peste me paga. Tá pensando o quê? Ele é o dono da festa, por acaso? José pegou uma 765, encheu de balas, coloco-a na cinta e saiu pensando: “Vou atirar no som, nos peitos do dono e até na p... da mãe dele se ela aparecer. Não... É melhor ir devagar. Vou conversar logo mansinho com o cara, mas se o sacana se alterar, aí eu lhe esfrego essa pistola na venta e pronto”.
José abriu a porta da frente e não viu quase ninguém na rua. Cada passo dado, um pensamento novo. Passou o vigia da praça, dobrou a esquina uma piniqueira, mas o “Fuscão Preto” não parava de rodar. José levou a mão à cintura, apertou a coronha, sentiu-se mais seguro e renovou as ameaças para seus botões. Chegou perto da barraca, parou e, com os olhos fotografou o ambiente. Havia somente um casal, cujo homem parecia embriagado. E “Fuscão Preto” rodava e “Fuscão Preto” repetia e “Fuscão Preto” não parava. José chegou devagarzinho ao balcão, apoiou bem os cotovelos e antes de abrir a boca, o barraqueiro adiantou-se com sorriso largo: “Seu José, o senhor por aqui. Como foi bom ter chegado! Eu já estou que não aguento com aquele cidadão pedindo ‘Fuscão Preto’ o tempo todo. Mande às ordens”.
A raiva do meu amigo foi amaciada 50%. José olhou para o casal, o homem estava de cabeça baixa. Entretanto, a mulher, “morenona” criada à base do cuscuz com leite, aboticou os olhos para o seu lado. A raiva do meu amigo foi amaciada em 25%. Para completar, José que gostava dessas oportunidades, teve vontade de beber. A raiva do meu amigo foi amaciada em mais 25%. Foi quando a mulher sorriu de lá, ele respondeu dali e achou que havia completado os 100. José perguntou através da mímica, se ela estava gostando da música. A morena levantou o polegar e o barraqueiro destampou uma cerveja à mesa do casal. Aí o meu amigo José, com certeza da transformação e da vitória, chamou o dono da espelunca e disse. “Joaquim, também quero dar lucro ao seu bar, mas tem uma coisa: só me traga uma daquelas geladinhas se você me deixar ouvir o “Fuscão Preto”. O barraqueiro bateu com as duas mãos na tábua, aumentou o tamanho da boca de jiboia e gritou animado: “Eita, peste! Enquanto o primeiro freguês cochilava, sumiu a morena da mesa, desapareceu meu amigo José. As cervejas ficaram pela metade, o dia queria amanhecer, e até umas horas, reinou pleno, absoluto e abusado, só o “pito” do velho “FUSCÃO PRETO”.

O PICOLÉ DE SEU NOZINHO (Clerisvaldo B. Chagas. 4.11.2009) Firmino Falcão Filho, também chamado “Seu Nozinho (ô)” ou simplesmente Nozinho, f...

O PICOLÉ DE SEU NOZINHO

O PICOLÉ DE SEU NOZINHO
(Clerisvaldo B. Chagas. 4.11.2009)

Firmino Falcão Filho, também chamado “Seu Nozinho (ô)” ou simplesmente Nozinho, foi personalidade importante em Santana do Ipanema. Fazendeiro, comerciante, dono de prédios, chegou a ser prefeito gestão 1947-48. Vindo da Zona da Mata, logo se adaptou bem nessa cidade sertaneja. Entre as suas versatilidades, estava a de brincar o carnaval sozinho. Era o folião solitário que apenas com uma fina máscara percorria as ruas da cidade. No Bairro Monumento, defronte o casarão do Ginásio Santana, do outro lado da rua “Seu Nozinho” abriu uma sorveteria. A nova casa recebeu o sugestivo nome de “Sorveteria Pinguim” e com essa denominação passou muito tempo no bairro. Em 1959, na gestão do Prefeito Hélio da Rocha Cabral de Vasconcelos, foi construído um palanque oficial para o município destinado aos eventos da terra. O lugar escolhido foi a “Sorveteria Pinguim”, na parte superior, uma vez que o terreno daquele comércio pertencia à Prefeitura. Com o forte calor de verão, o ramo do gelo parecia ser bom negócio. E Firmino Falcão Filho passou a vender sorvetes e picolés aos alunos do Ginásio Santana, aos do Grupo Padre Francisco Correia, aos passantes... Aos matutos vindos para a feira do sábado. Quando não havia freguês, caso surgisse um bom conversador, Firmino Falcão Filho puxava os assuntos das suas realizações do tempo de prefeito.
Certa vez eu estava perto do balcão quando chegou um campesino querendo picolé. “Seu Nozinho” abriu a tampa do depósito, o homem escolheu rápido pelas cores e logo estava com um picolé verde-folha às mãos. Chupou o picolé, mordeu, mastigou e perguntou ao comerciante de que era feito aquele verdão. “Nozinho” não contou conversa e respondeu: "De folha de catingueira”. O matuto olhou de lado, fez cara feia e saiu resmungando. Logo apareceu um rapaz querendo a mesma coisa. Pegou o picolé, passou a língua, e perguntou de que era. “Seu Nozinho”, falou brincando ou não: “Você que estar chupando não sabe, quanto mais eu”.
Eleições no interior é uma festa. Muitas coisas acontecem em todos os lugares, inclusive comentários incríveis. Meses depois de uma delas haver sido realizada, eu conversava com um senhor do pé da serra. Ele me falava de uma fila enorme que havia sido formada no centro de Santana para receber notas de cem, novinhas em folha. Deixamos o assunto de lado e começamos a contar casos humorísticos. Depois que ele contou várias passagens, eu passei para ele o caso dos picolés. O matuto, ao invés de gargalhar, olhou-me admirado, pensou um pouco e voltou imediatamente a sua cabeça, o caso da eleição. Apenas cruzei as pernas e mostrei indiferença quando o caboclo rebateu filosofando: “Ah, quer dizer, então que aquela fila enorme da gota serena, era apenas para receber O PICOLÉ DE “SEU NOZINHO”.

CLAUDIO CANELÃO (Clerisvaldo B. Ch...

CLAUDIO CANELÃO

CLAUDIO CANELÃO
(Clerisvaldo B. Chagas. 3.11.2009)

Quando brincávamos na Rua Antonio Tavares, ainda sem calçamento, conhecemos o Claudio que exercia a profissão de sapateiro, bem perto da Travessa maior Benedito Melo. Sendo alto e seco, o sapateiro logo ganhou o apelido de Claudio Canelão. Claudio era uma daquelas pessoas que ninguém adivinha a idade. Poderia ter entre 18 e 25 anos. Caladão, bigodinho e voz horrível. Na época, a grande sensação de todas as ruas sem benefícios, para a meninada era o jogo de ximbra. O jogo com essas bolas-de-gude era chamado de “Papão”. Quem jogava muito bem era chamado de “rato”. Ou se jogava “brincando” ou se jogava valendo uma ximbra por partida. Normalmente ganhávamos ou perdíamos no plano e nos três buracos no solo, entre eles o “Papão”. As vias ficavam repletas de meninos jogando, principalmente nas ruas Antonio Tavares, Senador Enéas e São Pedro. Acontece que o sapateiro também tinha uma atração muito grande por essas pequenas esferas. Era um desastre quando Claudio Canelão chegava perto de um grupo que estava jogando. Quem se arriscasse a jogar com ele, não teria chance alguma. O ponto de partida de cada jogada era sempre feita de cócoras e medindo um palmo para arremessar a bola com o polegar. Todavia, o palmo de Canelão já era meio caminho andado. Nos acertos às bolas era o maior de todos os “ratos” das ruas. E assim o Claudio Canelão, naquela sede medonha, ia embolsando todas as nossas ximbras: velhas, desgastadas, novas, lisas ou coloridas. É certo que ninguém era obrigado a brincar com o sapateiro, mas jogo é jogo e o desejo de ganhar do forte também mexe no mais fraco.
Como as brincadeiras eram muitas ao longo das ruas, surgiram alguns prefeitos intolerantes e começaram a perseguir os jogadores, ou seja, às crianças. Essas perseguições estendiam-se também aos jogos de futebol e pinhão. Como nas ximbras, havia também os “ratos” no pinhão. Esse objeto tinha mais vigor quando era jogado pelos mais crescidinhos. O pinhão bonito industrializado ou aquele feito de goiabeira, tanto dançavam na mão, quanto lascavam ao meio a “mita” colocada. Entretanto, a tara do Claudio Canelão era somente com as bolas-de-gude que brilhavam pelas ruas. Levava todas as nossas ximbras com seu palmo danado e sua pontaria de demônio.
As crianças continuavam naquele estágio de brinquedos, pensando que no futuro tudo seria diferente. E vem a fase da escola, o crescimento, até que um dia também surge o período de análise da vida. Chegam os livros, o rádio, a televisão, o jornal, os comentários... E depois descobrimos que nas diversas administrações públicas que vamos conhecendo, raros, raríssimos mesmo, são diferentes de CLAUDIO CANELÃO.

OLHAI PELOS PEQUENOS (Cle...

OLHAI PELOS PEQUENOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 2.11.2009)

em uma casa no sítio Luz do Dia, Município de Jacaré dos Homens, Alagoas, era um forte dia de verão. Várias pessoas estavam dentro da residência, quando uma rolinha penetrou de repente pela porta de trás e foi ficar na cumeeira. Mostrava-se cansada e nervosa como quem havia fugido de uma grande investida predatória. Houve certo alvoroço das pessoas que se alegraram e também quiseram capturar e abater a ave columbídea. O famoso poeta-repentista, Rafael Paraibano, tomou a frente e disse: “Essa ave é um ser vivo que invadiu a minha casa pedindo proteção. Como posso matar um ser que me pede socorro? Vamos protegê-la e soltá-la quando o gavião não estiver por perto”.
Quando algumas vezes falamos sobre a infâmia da classe política, de gestores de empresas estatais e outros, não falamos por falar e nem colocamos todos em um só processo. Falamos dos que não tem consciência, dos que não tem piedade, dos que não tem coração. Como pode um responsável pelo assunto deixar faltar merenda nas escolas de tantos alunos carentes? Isso é cortar todas as suas possibilidades de bom crescimento, é um crime horrendo que deixa marcas terríveis a médio e longo prazo. O que dizer dos que levam das escolas, a carne, o queijo, o leite e realizam suas feiras com a subtração das prateleiras escolares? E as filas que se formam todos os dias nos hospitais, nas casas de saúde, nos postos espalhados pelos municípios brasileiros? Onde estão os médicos? Cadê os medicamentos? Onde fica o humanismo em um país que estar entrando no primeiro mundo? Por que ao invés de protegerem os necessitados ainda lhes roubam o dinheiro, o direito, à vida? É certo que vivemos em um mundo de expiação, mas muitas vezes ele nos parece muito mais selvagem de que a própria selva. A corrida para tirar tudo que pertence ao pobre, está bastante parecida com as antigas corridas do ouro no velho oeste americano. Fica difícil consertar a corrupção por que ela se generalizou em todos os recantos. Se você tem quase nada, os goelas querem o seu quase nada. Nunca tantos acreditaram em tão poucos. Como dizia Lampião: “Comeram a consciência com farinha”.
E depois que o presidente disse que Jesus teria que fazer conchavo com Judas para ganhar as eleições, o que esperar mais dos homens desta nação de Santa Cruz? Não vemos outra saída a não ser uma grande mobilização nacional ─ de cunho permanente ─ por toda a sociedade organizada. Pois, até a última instância dos apelos populares está sem crédito de um real furado. Em outros aspectos continuamos como nas Idades Média e Moderna com o agravante cigano de outrora. Estamos cada vez mais carentes de exemplos dignificantes. Caímos no salvem-se quem puder ou no quem for besta beba gás. E, mesmo que o nosso grito seja rouco, estar sendo dado: Auxiliai os que sofrem, OLHAI PELOS PEQUENOS.